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Feridos. Assim estavam os 11 jogadores do Grêmio em campo quando o juiz decretou o fim da Libertadores 2007. Boca Juniors campeão. Estádio Olímpico, em Porto Alegre, virou palco da festa argentina. Um dos jogadores que recebeu a amarga medalha de Vice-Campeão da América se chamava Diego Souza. Jovem e talentoso, foi destaque naquela campanha surpreendente e improvável do Tricolor. Diego ficou ferido. Saiu do Grêmio exaltando a paixão de sua torcida, alegando que jamais havia visto coisa parecida, e lamentando pela Copa que lhe escapara pelos dedos.

No ano seguinte, 2008, um Maracanã lotado recebia um Fluminense que, assim como o Grêmio, também vinha de placar adverso no primeiro jogo da Final. Os 4×2 da LDU eram um pouco menos indigestos que os 3×0 que o Tricolor Gaúcho sofrera na última edição da competição, mas, ainda assim, os cariocas tinham uma parada dura pela frente. Na casamata do Flu, o jovem treinador Renato Portaluppi. Em campo, um talento fez a diferença: o também jovem Thiago Neves marcou 3 gols (já tinha marcado 1 na ida) e decretou o 3×1 que levou a decisão para os pênaltis. Nas cobranças… Ele errou. Mais dois colegas também erraram. Vitória dos equatorianos, que só desperdiçaram uma cobrança. Renato ficou ferido. Thiago, mais ainda.

Errar pênalti em Final de Libertadores deve ser horrível. Tem coisa pior? Talvez. Em 2012, Diego Souza arrancou sozinho em um contra-ataque do Vasco e ficou cara a cara com Cássio, goleiro do Corinthians. Já era 2º tempo. Tava 0x0 (mesmo placar da ida). Diego até chutou bem, no cantinho… Mas Cássio fez a defesa de sua vida, tirando a chance do Vasco avançar para a semifinal continental. Mais que muito gol perdido em Final, até hoje Diego Souza é lembrado por esse lance. Sem dúvidas, uma ferida difícil de cicatrizar.

E tem algo pior que perder gol de frente pro goleiro em uma quarta-de-final de Libertadores? Talvez sim. Tomar 5×0 em uma semifinal de Libertadores, por exemplo. Foi o que Renato tomou, em 2019, naquele mesmo e fatídico Maracanã de 11 anos atrás. Vexame. Humilhação. Renato, que até então gozava de bom momento no comando do Grêmio, ficou visivelmente ferido. O resultado abalou o clube institucionalmente. O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense ficou ferido.

Mas, afirmo, tem sim algo pior do que tomar goleada em Libertadores: ser rebaixado no Brasileirão. Sobretudo sendo o pivô de polêmicas e críticas. E esse foi o 2019 de Thiago Neves. Depois de um bom começo de ano, Campeão Mineiro invicto e líder geral da Libertadores (perdida nos pênaltis para o River), a bagunça generalizada do clube entrou pra dentro de campo e nada mais deu certo. Thiago, que somava títulos pelo Cruzeiro, foi escurraçado do clube. Saiu desprezado. E, claro, ferido.

Para Diego não houve nada de tão trágico ano passado. Mas talvez o grande problema tenha sido justamente esse: não houve nada. Não aconteceu coisíssima nenhuma. Para muitos, ele não rende mais. Se escondeu no Botafogo e, tal qual o time como um todo na temporada, não protagonizou absolutamente nada.

A Arena do Grêmio, neste momento, é um covil de feras. Feridas. Todos – clube, jogadores, comissão e direção – colecionaram conquistas e ótimos momentos em seus currículos. É inegável. São muitos vencedores reunidos. Mas todos vêm de um ano ruim. Querendo provar que ainda podem, querendo mostrar serviço. E todos com histórias mal resolvidas na Libertadores. Feridas que dificilmente cicatrizam. Agora, todos eles se reencontraram, no mesmo covil, lambendo suas feridas: Grêmio e Diego. Thiago e Renato. Ou melhor: Grêmio, Diego, Thiago, Renato e Libertadores da América. Um novo encontro vem aí. E os homens que vestem azul, preto e branco estão feridos. Ouvindo deboches. Piadas. Desconfiança até mesmo de gremistas. E tá tudo certo. Faz parte.

Mas confesso que, ainda que também um pouco desconfiado, estou curioso para ver o que vai acontecer nos gramados da América quando as luzes se acenderem, a torcida pulsar e as nossas feras, vestindo o manto mais copero do Brasil, entrarem em campo com as 3 taças no braço, o escudo do Grêmio no peito e todas essas feridas na alma.

Saudações azuis, pretas e brancas,
Lucas von.


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