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Na Serra Gaúcha, marcava 18h30. Saí eu do supermercado com um fardo de cerveja nas mãos. Minha namorada do meu lado carregava uma garrafa de frisante. E na empolgação de enviar um áudio para o meu pai onde eu dizia: “E aí, bora tomar uma então pra ver o Gre-Nal?”, não pude deixar de notar um grupo de amigos pagando a sua carne no caixa. Já no estacionamento, dois casais de torcedores saiam de um carro só e a conversa que eu peguei ao passar do lado falava algo sobre comprar mais bebida e mais pão de alho para os convidados do churrasco que veriam o clássico.
Que as pessoas iriam se aglomerar para ver o jogo, era certo. E está totalmente errado, né?

– Era mesmo de voltar agora com o futebol? – foi o que me perguntou a minha namorada.
– Não. Mas já que voltou, vamos torcer. – foi o que me restou responder.

O futebol no sul voltou. E voltou com um Gre-Nal. Cerca de quatro meses após o último – o maior de todos, pela Libertadores – que ao que se vê com a pandemia mundial, sequer deveria ter acontecido. Eu e meus amigos costumamos brincar dizendo que foi o último jogo relevante no mundo antes da maior e mais inesperada parada mundial de todos os tempos. Curiosamente, no primeiro Gre-Nal pela mais importante das competições. Agora, era hora de voltar? Óbvio que não.

O argumento de que o futebol ao vivo traz entretenimento para as pessoas em casa cai por terra totalmente quando você vê as pessoas se aglomerando, fazendo churrascos e encontros, contrariando tudo que é básico nesse novo normal das nossas vidas. Eu sigo achando totalmente absurda a volta do futebol no Brasil nesse momento. Mas já que voltou, é evidente que nós vamos assistir.

Evidente também que tomei uma cerveja com o meu pai curtindo o pré jogo, isso é normal.
E quando a bola rolou num gramado tenebroso do Estádio Centenário, chamou a atenção os telões com imagens de torcedores e o barulho de cantos emitido por caixas de som num estádio vazio, isso é novo.
Em campo, um clássico equilibrado. E polêmico. Pênalti perdido, reclamação de que deveria ter jogador expulso – pelos dois lados. 45 minutos de empate. Isso é normal.
Enquanto no Whatsapp íamos discutindo nos grupos, xingando os amigos rivais depois de tanto tempo. Após toda a provocação,  deu aquele remorso. Antes mesmo do fim do jogo eu já tinha feito as pazes com o amigo colorado que eu havia insultado. Isso é novo.

E no jogo? Bem, resultado final 1 a 0. Isso é normal. Grêmio com a sua maior invencibilidade dos anos 2000, isso é novo.

Gremistas que pediam a saída de Renato Portaluppi em silêncio, isso é normal. D’Alessandro chamando o presidente da FGF de parcial, isso é novo.

Pessoas se aglomerando burlando o distanciamento, clássico num estádio de interior com grama ruim, telões de LED e torcida fake. Jogadores fora de ritmo depois de uma parada jamais vista de quatro meses, polêmicas na arbitragem, pênalti e não expulsão, cinco substituições disponíveis e seis jogadores em cada banco – usando máscara.

E entre o que é novo e o que é normal, o Grêmio venceu um jogo equilibrado com gol de Jean Pyerre.

Mas será pra sempre isso o nosso novo normal?

 

Paulinho Rahs

Lucas Uebel/Grêmio

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