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DIAS DE GUERRA (sobre privilégios e preconceitos)

História fictícia de Lucas von (mas que retrata uma realidade)
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Uma história fictícia retratando realidades que nos cercam e que nem sempre enxergamos.

UM DIA EM GUERRA

Era sábado de manhã. Logo cedo tive um desentendimento com minha namorada. Coisa boba. Nem lembro bem o motivo. Mas tomou proporções maiores e os ânimos ficaram aflorados. Saí de casa batendo a porta.

Andando pela rua a esmo, me acalmei um pouco e percebi que falei coisas que não devia. Errei. Parei perto de um grupo de pessoas que esperava o ônibus e tentei selar as pazes: liguei pra ela e chamei de amor, querida, meu bem. Pedi desculpas. Todos me olhavam solidários, na torcida para que ela me perdoasse. Não deu. Ainda estava muito irritada. Disse meia dúzia de desaforos e desligou na minha cara.

Então liguei para um grande amigo: “cara, vou dar um pulo aí, preciso desabafar”. Antes de ir pra casa dele, passei no supermercado. Cumprimentei o simpático segurança perto da entrada, peguei rapidamente alguns salgadinhos e um refrigerante (meu amigo não bebe), paguei tudo e saí. Cheguei no prédio dele. O porteiro nem me conhecia e abriu o portão. Subi de elevador. Meu amigo se assustou quando me viu tocando sua campainha. “Como chegou aqui?” “- Matei teu porteiro”, brinquei. Rimos. Primeira vez que ri no dia. E, depois disso, outras risadas vieram. Foi ótimo ter ido até lá.

Hora de ir embora. Já era noite. Resolvi voltar a pé. Não era tão perto, mas eu queria arejar um pouco mais a cabeça antes de chegar em casa. Segui andando. No caminho, passei por uma rua deserta, escura, sombria. Até meio assustadora. O chão da calçada totalmente irregular. Nunca tinha visto aquela rua. Será que me perdi? Ou será que minha tristeza deixava aquela rua mais triste do que o normal?

Eis que minha namorada me liga. Bem mais calma. Tinha pensado melhor também. Minha voz ecoava na ruazinha deserta, em um tom doce e desconfiado. Do outro lado, uma voz serena e conciliadora, com um ruído ao fundo: “estou no shopping. Vou comer algo. Quer vir aqui?” Rapidamente apanhei um táxi que passava ali por perto e fui pra casa pegar o carro para, aí sim, me mandar pro shopping.

Chegando lá, shopping lotado. Estacionei em uma vaga bem longe. Corri até a praça de alimentação. Estava ansioso pra vê-la. Cheguei até ela suando. Suando muito – o carro havia ficado realmente longe. Ela disse “oi, seu imundo”. E me deu um beijo de cinema. Na frente de todo mundo. Pessoas até aplaudiram. E aquele dia de guerra acabou em paz.

TODOS OS DIAS EM GUERRA

Na verdade, tempos depois desse dia, percebi que aquele sempre foi um dia de paz. Do início ao fim. Ah, claro: teve aquele pequeno contratempo com minha namorada. Mas todo o resto da trama se passa em um território amistoso, nada hostil. De paz.

Sou homem, branco, heterossexual, classe média e sem necessidades especiais. Mudando qualquer um destes itens, minha jornada já se tornaria muito mais bélica. Vejamos:

– Discuti com minha namorada. Se eu fosse mulher, poderia ter sofrido agressões físicas. É bem comum no Brasil acontecer isso com as mulheres pós discussões de casais (incluindo feminicídios);

– Liguei pra ela no meio da rua, com plateia torcendo por mim. Se eu fosse gay (e me referisse ao interlocutor como “querido”), os olhares talvez não fossem solidários: se me ouvissem falando com meu namorado, talvez eu fosse até hostilizado por alguém;

– No supermercado, o segurança foi simpático e depois indiferente à minha presença. Se eu fosse negro e/ou estivesse mal vestido, talvez ele tivesse me seguido, me observado. Me constrangido. Talvez até me acusasse de ter roubado algo que não roubei. Pensando bem agora… Não tenho certeza se era o segurança. Era um senhor negro perto da entrada. Será que não fui racista?

– O mesmo vale pro porteiro no prédio do meu amigo: me deixaria passar direto se eu fosse negro? Ou se eu tivesse com roupas mais simples? Será que alguém, já lá dentro, não me indicaria o elevador de serviço?

– E a rua deserta e irregular por onde andei: conseguiria passar por ali se fosse cadeirante? E se fosse mulher? Será que não correria risco – ou pelo menos sentiria muito medo – de ser violentada?

– Pegar táxi rapidamente na rua, à noite, perto de vias escuras e desertas: um negro teria a mesma facilidade? Será que conseguiria?

– Estacionando no shopping, só tinha vaga bem longe. Se eu fosse uma pessoa com deficiência, será que a vaga reservada pra mim, bem perto da porta, estaria vaga? Ou será que eu teria que protagonizar uma epopeia, deixando o carro longe, pra chegar até o portão de acesso?

– E o beijo em público com minha namorada? De cinema. Mas se fosse com meu namorado? Será que teria aplauso? Ou ouviríamos algum desaforo? Quem sabe até alguma tentativa de agressão física?

– E se eu fosse pobre? Essa história toda seria impensada. Carro? Táxi? Cerveja fora de hora? Prédio com elevador? Jantinha corriqueira no shopping? Essa briguinha fútil seria minúscula frente a tantos outros problemas que eu teria na vida. A “guerra” de verdade poderia ser até mesmo buscar o que comer.

O mundo é muito bom pra mim. E, infelizmente, o nome disso não é “normalidade” – o que deveria ser em um mundo perfeito. É “privilégio” mesmo. Sou privilegiado. Muitos de nós somos, em algum âmbito. Será que percebemos? Será que valorizamos? Será que fazemos algo pra tentar derrubar essas barreiras com os menos privilegiados?

Se ter menos privilégios é algo pior, que 2020 seja muito pior pra mim. Se o mundo tá ficando chato porque não se pode mais fazer piadinha com minorias, que ele fique ainda mais chato pra nós, privilegiados: isso certamente ajudará a torná-lo menos “chato” pra quem sofre diariamente com lutas que nem imaginamos. Que esse mundo fique cada dia menos hostil para as pessoas que vivem verdadeiras guerras diárias, diante de situações que, para mim, são corriqueiras e tranquilas. E que ele seja cada vez pior para todos que relutam para não largar seus tristes privilégios.

Chega de ver batalhas sendo travadas diariamente por seres humanos que só querem trabalhar, andar na rua, visitar amigos, fazer compras… Chega de ignorância. Que a equidade social seja uma conquista cada vez mais significativa no Brasil e no mundo.

// E VOCÊ? QUE PRIVILÉGIOS SE DEU CONTA UM BELO DIA QUE TINHA?

// Toda minha solidariedade ao jogador Taison e ao segurança do Mineirão (no vídeo abaixo eu falo disso no começo).

Saudações azuis, pretas e brancas.
Lucas von.

PODCAST “PITACOS DO VON”

Episódio de 11/11/19

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Foto: reprodução

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