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BEM NO CANTINHO

Opinião de Lucas von sobre a saída de Everton Cebolinha para o Benfica (Portugal)
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Eu não sou de chorar. Acho até que guardo demais minhas emoções, e isso não deve me fazer bem. Durante os 15 anos de jejum do Grêmio, fui a quase todos os jogos no Olímpico e Arena. A vários fora de casa também. E foram tempos difíceis, repletos de tombos e desilusões. Mas nunca chorei, mesmo nos momentos mais tristes desse período. Ficava muito abatido, por vezes até irritado, mas sem lágrimas. Enfim, não sou de chorar.

De 2002 a 2016, era essa nossa vidinha. Colecionamos fracassos dos mais variados: contra times melhores que nós, times piores, derrotas previsíveis, derrotas vergonhosas… Tinha de tudo. Sabíamos como poucos, de cor e salteado, quase todo tipo de roteiro possível para não se ganhar títulos.

Em 2016, o Grêmio pegou o Palmeiras nas quartas-de-final da Copa do Brasil. O time paulista era a sensação do momento: elenco milionário e Gabriel Jesus no comando do ataque. Sagraram-se Campeões Brasileiros com autoridade. E, na Copa, acharam um golzinho de pênalti na Arena do Grêmio deixando o placar perigoso devido ao gol qualificado. Final em Porto Alegre, 2×1.

Fui a São Paulo com alguns amigos para o jogo de volta, como de praxe em várias partidas importantes do Tricolor noutras querências. E lá estávamos, empolgados e cantantes, assistindo a um 0x0 truncado que dava vaga ao Grêmio nas semifinais. Eis que, de repente, já no 2º tempo, num escanteio para o alviverde, a bola bate, rebate, sobra pra alguém e, no meio da confusão: gol do Palmeiras. O legítimo “gol cagado”. Não estavam merecendo. Nos sentamos nas cadeiras do Allianz Parque. Nos olhamos resignados, abatidos e entristecidos. Uns balançavam a cabeça, outros colocavam as mãos no rosto, alguns bradavam xingamentos contra sabe-se lá quem… Mas todos concordavam: “já vimos esse filme”.

Era o filme dos últimos 15 anos. Já começava a pipocar aquele papo do “é, gurizada… Fizemos nossa parte. Mais uma vez. Tamo aqui. Ano que vem tem mais“. As esperanças não tinham morrido totalmente, claro. Seguíamos de olho no jogo. Mas o filme era muito familiar. Tinha trechos de roteiros que conhecíamos muito bem… Até que o Renato colocou em campo o jovem Everton Cebolinha, de 20 anos de idade. Em um dos seus primeiros lances no jogo, foi pra cima do adversário em um drible e… Falta! E cartão vermelho para o palmeirense! OOOPA! O que é isso, menino!? Para de nos iludir desse jeito! Esse trecho não tava no script! Que roteiro é esse?!

A torcida gremista ensaiava uma empolgação nas arquibancadas, ainda com resquícios cautelosos de um freio de mão levemente puxado, até que o menino Cebola pega uma bola no bico da área, corta o zagueirão e chuta pro gol, no cantinho… BUCHA! Explosão total. Everton tira a camisa, enlouquece, sai correndo, caneleiras dele voam pelo gramado e, enfim, o descontrole está formado. Aquela bola venenosa, entrando no cantinho do gol palmeirense, não sai da minha retina. Nunca mais sairá. Mudou o curso da nossa história.

Eu podia lembrar aqui de inúmeros gols ou golaços de Everton pelo Grêmio. Das assistências cirúrgicas. Dos Gre-Nais, dos mata-matas… Podia falar também do profissional de caráter exemplar que ele foi em toda a sua jornada vestindo azul, preto e branco: mesmo sendo reserva em momentos cruciais, dando vaga para atletas de qualidade inferior, nunca criou problema, nunca deu letrinha, nunca ficou de beicinho torcido; sempre levantou a cabeça e trabalhou duro por um lugar ao sol. E, falando em lugar ao sol, teve também o gol contra o Pachuca, naquele que, para muitos, seria um dos jogos mais difíceis e nervosos da história recente do Grêmio: a semifinal do Mundial. Eu poderia ter feito um texto inteiro sobre esse golaço que colocou o Cebolinha ao lado de Renato Portaluppi como um dos únicos atletas do Grêmio que marcaram gols em um Mundial Interclubes.

Poderia lembrar também da Final da própria Copa do Brasil de 2016, pois eu também estava no Mineirão. A minha explosão quando Geromel cruzou e o Cebola se jogou na bola para estufar as redes de Victor foi algo que eu jamais devo viver novamente na vida. Foi, talvez, o maior jogo do Tricolor que eu presenciei. O terceiro tento talvez tenha sido o gol com o qual mais vibrei na vida: e o Everton fez parte disso. Portanto, fica claro que eu poderia falar, enaltecer e criar teses sobre muitas coisas que envolvem a trajetória desse cara vestindo o Manto Tricolor. Mas escolhi falar daquele 1×1 no dia 19/10/2016, pois aquele momento, sem dúvidas, foi um divisor de águas na vida do Grêmio.

Naquele jogo de SP, o Cebolinha pegou o roteiro de sempre, leu, não gostou, rasgou e jogou fora. Foi pra cima. Com ímpeto. Com a mesma gana que a torcida gremista tinha em casa ou nas arquibancadas. Everton começou ali a dar um “chega pra lá” em nosso jejum de títulos de uma forma que ele, o jejum, nunca tinha visto. Não foi uma mera ilusão porque contratamos um jogador bom ou fizemos alguns jogos interessantes. Foi coperismo na veia. Foi reviravolta. Foi não aceitar a derrota. Foi destruir o Campeão Brasileiro em sua casa. Foi mudar paradigmas antigos. Foi entrar em campo em poucos minutos e acabar com um jogo encardido. Foi moldar a história.

Obrigado, Cebola. És gigante. E deixaste teu nome marcado pra sempre na história desse outro gigante aqui do Sul do Brasil. As portas estarão sempre abertas pra ti. E saiba que eu não sou de chorar: quando deste aquela entrevista no fim do último Gre-Nal, na qual acabou indo às lágrimas, não estava em meu roteiro pessoal chorar junto. Mas alguém rasgou o roteiro. E, no cantinho do olho, beeeem no cantinho (como tu gosta), algumas lágrimas vieram se despedir de ti. Chorei contigo, Everton.

Voa, Cebola! Boa sorte na carreira. Vai pra cima deles. Corta pra dentro. Rasga os roteiros inconvenientes. E mete no cantinho.

Saudações azuis, pretas e brancas,
Lucas von.

Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA

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