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AS EXPULSÕES DO GRÊMIO NA COPINHA

Opinião de Lucas von sobre o comportamento dos atletas e as regras do futebol
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Os meninos do Grêmio expulsos na Copa São Paulo de Futebol Júnior não erraram. E eu explico.

O futebol não faz o menor sentido, se analisado pela frieza da lógica: rimos, choramos, gastamos dinheiro, mudamos nosso humor e nossa rotina por 22 marmanjos que correm atrás de uma esfera de couro. Na lógica, o futebol é apenas isso.

Mas, na prática, ele é muito mais. Ele é apaixonante por um somatório de fatores ilógicos. Por sentimentos, emoções, simbolismos. E algumas regras do futebol colidem com a essência do próprio futebol. A punição em comemorações de gol é uma das mais estapafúrdias e emblemáticas delas.

SUBIR NO ALAMBRADO

Na Final da Copinha, o zagueiro gremista Alison Calegari subiu no alambrado para comemorar com sua torcida o gol que abria o placar na partida. Ele já tinha amarelo, recebeu o segundo e foi expulso. A partir dali, mudou o jogo. Com 1 jogador a mais, o Internacional empatou logo em seguida e, com mais pernas ao final do confronto, venceu a disputa nos pênaltis.

Confesso que essa razão para punição em comemoração é a que acho “menos errada”. Há um sentido mais aceitável por trás: pode causar acidente. O alambrado pode vir abaixo, o atleta pode cair, enfim, a razão é legítima. Mas igual, acho a regra desnecessária. Talvez a cada 1 bilhão de atletas que sobem em alambrados, 1 cause acidente. É tão irrelevante essa margem que não há sentido de se criar a regra. Agora, o número de partidas alteradas por expulsões decorrentes dessa punição, esse sim deve ser expressivo.

Na prática, o que ocorre é uma punição por protagonizar um dos momentos mais sublimes do esporte bretão: jogador e torcedor, frente a frente, enlouquecidos, celebrando a essência explosiva do futebol.

PROVOCAR TORCIDA ADVERSÁRIA

Já o nosso camisa 8, Diego Rosa, foi expulso nas quartas-de-final, na disputa por pênaltis, ao converter sua cobrança e pedir silêncio aos torcedores do Vasco. Segundo amarelo também. Não jogou a semifinal por isso.

Essa, sem dúvidas, é a situação mais ridícula em que aplicam a punição na comemoração. Provocar torcida rival é tão legítimo quanto comemorar com a sua própria torcida. Paulo Nunes imitando um Saci pós gol de meia-bicicleta, em pleno Beira-Rio, é dos maiores momentos futebolísticos que guardo na memória. “Ah, mas incita a violência”. Opa. A violência é o erro, não a provocação sadia. Que os violentos sejam punidos em caso de baderna. Proibidos de pisar em estádios, presos. Essa é a lógica pura e simples. Ou, daqui a pouco, vão proibir dribles desconcertantes e até gol de letra, porque pode humilhar o adversário e incitar a violência também. Os violentos estão errados! Simples.

TIRAR A CAMISA

Outra punição que vai contra a essência do esporte. A hora do gol é explosão, é fazer o que der na telha, é extravasar. Se criarmos robôs orientados a fazer o que mandamos na hora do gol, o futebol acaba rapidinho. A espontaneidade faz parte do pacote que torna o esporte tão apaixonante.

O motivo é compreensível: prestigiar o patrocinador do clube que, na hora mais importante, ficaria de fora das imagens. Primeiro: não fica de fora. O replay é mostrado mil vezes e o gol em si é mais repetido que a comemoração. Na hora do gol, há patrocínio. Segundo: o patrocinador tem que saber o que está patrocinando. Seus interesses não podem ir na contramão da essência do esporte. Ou o esporte começa a ficar chato e ele não vai nem ter mais o quê patrocinar, porque as pessoas podem começar a perder o interesse. Tirar a camisa é instintivo, “ato-reflexo”, um clássico nas comemorações. Faz parte. Por vezes acontece. É como patrocinar MMA e pedir que os lutadores não caiam no chão, “pois paguei uma fortuna para colocar minha marca no calção”. Saiba o que está patrocinando!

Lembro que, em 2010, o Banco Hipotecario patrocinou o Racing/ARG e pediu pra NÃO COLOCAR SUA MARCA NO UNIFORME. “Devolvemos a camisa ao torcedor”, disseram. Patrocinaram, mas deram ao clube uma camisa “limpa”. Sensacional. E ousado, claro. Mas aposto que apareceram mais com as notícias na época do que apareceriam com os jogos do Racing. O ponto é: sacaram a essência do futebol e caminharam no mesmo sentido (dando passos até além).

TÁ, MAS OS GURIS DO GRÊMIO ERRARAM?

Na frieza analítica, sim. Sabendo como é a regra, podiam ter evitado. Sobretudo o zagueiro Calegari, que estava em uma Final, Gre-nal, sabia que já tinha amarelo… A dos pênaltis foi mais inusitada, talvez menos previsível. Mas ok, ambos erraram. Foram imaturos, imprudentes, podemos definir como quisermos.

Mas o fato é: a regra é nitidamente errada. E se você desrespeita uma regra errada, na prática você não errou. Se no Brasil virar lei que é proibido abraçar as pessoas, você nunca mais abraçará ninguém? E quando seu filho/irmão/etc chegar no aeroporto depois de morar 5 anos fora? Mesmo sabedor das regras, você não vai infringi-la? Vai. Com certeza vai. Nem que isso lhe custe uma tarde na delegacia, ato circunstanciado, cesta básica, trabalho comunitário ou multa. Mas aquele abraço é sua essência, genuíno, espontâneo. É o que brota de você naquele momento.

Talvez um policial no aeroporto pudesse entender o contexto, ter empatia, fingir que não viu. Assim como talvez o árbitro pudesse ter feito vista grossa para o alambrado da Final da Copinha: o jogo era decisivo, o guri já tinha amarelo, não causou dano algum, os colorados sequer reclamariam… Podia deixar passar. Seria um “erro” aceitável. Não foi pontapé, não foi lance de jogo, falta, violência, nada. Foi uma bizarrice da regra.

Mas ele preferiu aplicar a “frieza da lei”, ainda que ela passe longe de conversar com a essência do futebol.

Saudações azuis, pretas e brancas,
Lucas von.

Foto: Guilherme Rodrigues/GR Press

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