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Afinal, o que vale em um clássico?

Coluna de Paulinho Rahs
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Quando o árbitro Jean Pierre Lima sacou o cartão vermelho do seu bolso traseiro e mostrou para o volante do Internacional, Musto, as possibilidades pareceram se expandir aos olhos da torcida tricolor.Não apenas pelo fato de desagradar a torcida colorada que lotou o Beira-Rio ver o cartão rubro ser brandido, mas, principalmente, porque naquele momento da partida o Grêmio jogava muito melhor que o seu rival. Com dois gols de Éverton anulados pelo VAR – bem anulados, sejamos honestos – e mais duas chances inacreditáveis perdidas por Alisson e Diego Souza, parecia ser questão de tempo para que o Grêmio colocasse no escore a vantagem já visível no gramado.

Isso seria o óbvio, o esperado. Mas se você acha que em um Gre-Nal coisas óbvias acontecem ou que quando uma equipe parece ser favorita isso vai acabar se consumando, talvez você não entenda nada de Gre-Nal. Ou de clássicos. Ou mesmo desse apaixonante esporte que contraria a lógica chamado de futebol.

Antes do jogo as possibilidades pareciam muito parecidas. A torcida colorada dando respaldo ao seu novo treinador, Eduardo Coudet, mesmo estando um tanto incomodada com o tal esquema de “quatro volantes”. A torcida gremista sempre confiando no seu maior ídolo Renato Portaluppi, apesar de ainda não estar bem convencida com o Grêmio de 2020.

Em campo, Renato escalou Maicon um pouco mais avançado, junto com Matheus Henrique e Lucas Silva – que assumindo uma função de primeiro volante fez nos primeiros 45 minutos a sua melhor partida com a camisa tricolor. O Grêmio foi, de fato, ligeiramente melhor em campo no primeiro tempo. O Internacional chegou a assustar com Guerrero e D’Alessandro. Mas o time parecia nervoso e errava demais. No lado tricolor, as coisas funcionavam melhor.

Éverton Cebolinha, como sempre “on fire”, marcou os dois gols que acabaram não valendo. Mesmo as ausências de Geromel e Kanemann foram bem supridas por Paulo Miranda e David Braz. Das 11 peças, apenas uma não parecia funcionar bem. Bruno Cortez, novamente, foi muito mal. Inseguro e frágil foi a válvula de escape dos ataques colorados.

O gol do Grêmio parecia estar “maduro”, pronto pra sair, ao apito final da primeira etapa. Mas, como eu disse, nada é óbvio quando se trata de Gre-Nal.

O segundo tempo foi um verdadeiro show de horrores para a torcida Grêmio. O time com um a mais foi lento, apático e por vezes distraído. Matheus Henrique acabou indo mal na condução do meio campo. Maicon, amarelado, foi substituído por Thiago Neves que, além de uma cabeçada que raspou o pé da trave, não conseguiu fazer muito mais.O Internacional soube se portar com um a menos. Se fechou, contra atacou e teve no mínimo três chances claríssimas de gol que se fossem convertidas deixariam as coisas beirando o impossível para o Grêmio que se apresentou no segundo tempo.

Nos últimos anos criou-se uma história de que o torcedor do Grêmio está diferente. Um causo específico é muito usado para exemplificar isso. A passagem do meia técnico Roger Flores pelo Grêmio em 2008 iniciou sendo alvo de desconfiança da torcida pois, dizia-se, que o torcedor do Grêmio não gostava de quem “sabia jogar bola”. Roger, então, deu um carrinho na estreia para ganhar o carinho da torcida. Esse mito foi muito reforçado com o Grêmio multi-campeão dos anos 90, que jogava feio mas ganhava. Muitos elencos fizeram isso se tornar um mantra do gremista. O de 2007, que tinha Diego Souza, foi um dos maiores. Um time fraco, que parecia que ia perder, mas ganhava apenas na superação. “O Grêmio é o time das vitórias improváveis”, alguém disse, e o gremista se apegou nisto.

Esse conceito começou a mudar em 2015 com Roger Machado. E Renato Portaluppi com todos os títulos conquistados coroou essa nova ideia de que o Grêmio jogava bonito. O torcedor do Grêmio, então, começou a encher a boca para falar que jogava o melhor futebol do Brasil.Mas ninguém consegue negar a sua essência por muito tempo. A instituição Grêmio tem uma alma que ecoa por onde passa a camisa de três cores. O torcedor de verdade segue chorando toda vez que assiste a Batalha dos Aflitos.

O gremista pode até dizer que gosta do futebol tabelado e bem jogado, mas vai seguir, no fundo do coração, amando um carrinho bem dado.E o Gre-Nal 423 relembrou o gremista de quem ele é de verdade.Quando tudo parecia que ficaria fácil para o Grêmio, o próprio time, como que num transe, não soube se valer de sua própria vantagem.Afinal, jogou um tempo bem mas nada conseguiu concretizar. E quando, com um a mais, jogou 45 minutos mal, conseguiu por fim do que se esperava.

Um gol chorado, de cabeça, aos 46 minutos do segundo tempo. Com Diego Souza, daquele Grêmio guerreiro de 2007.A bem da verdade, torcedor, é que podemos até ter jogadores técnicos, mas é muito mais delicioso no contexto de ser fã de futebol quando a vitória é sofrida, suada.

É muito mais delicioso, pra ser sincero, quando a vitória vem mesmo quando a gente joga menos que o adversário.E a pergunta aquela, sobre o que, afinal, vale em um clássico? Jogar bem, jogar mal, com vantagem ou desvantagem, com a bola ou sem ela…O que importa é vencer. E no clássico 423 nós conseguimos, mais do que nunca, sendo Grêmio.

 

Paulinho Rahs

Lucas Uebel | Grêmio FBPA

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