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A América que se acostume

Texto de Paulinho Rahs
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E enfim aconteceu. O maior de todos os Gre-Nais até hoje. Pela primeira vez na história a rivalidade mais polarizada e intensa do Brasil se viu frente a frente na maior competição de todas: a Libertadores da América.

Eu, mais uma vez, estive na Arena para fazer parte e escrever junto com mais de 50 mil pessoas presentes – e milhões não-presentes, mas também sendo parte – a nossa própria história. O povo gaúcho se orgulha como poucos de seu passado e suas tradições, suas conquistas e façanhas. Nós fomos criados, gauchinhos tomando mate com açúcar ainda numa mamadeira, ouvindo e enraizando em nossa personalidade a importância que tem tudo aquilo que a gente vive e constrói – e daí deixa de legado para aqueles que vem depois. Se dar por conta de que, finalmente, somos nós vivendo no presente o que será contado no futuro é mais do que excitante: é visceral e intenso demais.

Que pequeno gremista não escutou seus pais, tios ou avós falando do tal do Gre-Nal do século de 89?
Do tal de Inter dos anos 70 ou o tal de Grêmio dos 80?
De como foi o Grêmio de Portaluppi ou o Inter de Falcão?
Mas isso sempre foi tão distante. Agora já podemos contar com a boca cheia que vivemos o Gre-Nal dos 100 anos há mais de uma década. E há mais de 24 horas finalmente o Gre-Nal das Américas.

E como sempre muita expectativa. Ânimos exaltados de gremistas, colorados, fãs de futebol e até mesmo dos policiais. Eu, que vou em jogos desde meus 11 anos, fui sofrer com bombas de gás lacrimogênio somente no dia de ontem. E tudo isso faz parte do enredo.

Ânimos exaltados também em campo. Os jogadores sabiam da importância deste clássico. E, equilibrado que é o Gre-Nal, deu a lógica: um empate.

E aqui neste texto não vou desenvolver teses sobre o que aconteceu em campo. As bolas na trave do Internacional ou as chances de Luciano e Pepê pelo Grêmio.

O que realmente marca nesse clássico de 90 minutos é o que aconteceu só depois dos 85. O pau comeu. Sim. A chinela cantou.
No fim, 4 expulsos de cada lado. 3 titulares e 1 reserva de cada time na rua. Você vê, até nisso o Gre-Nal é igual. O jogo termina com um society no campo de futebol onze. E a imprensa entra num mar de hipocrisia gigantesco. Dizem por aí que isso é “feio”, que as brigas não representam o clássico Gre-Nal. Que ninguém que aprecia futebol gosta disso. Dizem, sim, os engravatados no ar condicionado do estúdio da rádio e da TV.

Enquanto nós, gremistas e colorados, no calor da emoção sabemos que a verdade é outra.

Eu que levei gás lacrimogênio de policiais a cavalo onde só tinha gente com a camiseta do Grêmio. Meu melhor amigo colorado que teve que passar 7 horas a fio entre se deslocar do Beira-Rio e poder ir embora da Arena.

Nós sim que sabemos que no fundo vibramos quando o bicho pega e as coisas chegam as vias de fato. Nós vimos e sentimos a torcida explodir quando os telões do estádio anunciavam cada um que havia sido expulso.

E o Gre-Nal 424 ou Gre-Nal das Américas, como a mídia chamou, parou até o tal de Corona Vírus. Uma epidemia mundial teve que esperar.
– Já que o sul está parado, vou parar eu também – deve ter pensado o vírus chinês.
Talvez tenha sido o último jogo de multidão em algum tempo por essas bandas.

A grandeza do Gre-Nal é essa. Por aqui para-se até a saúde pública. Todas as questões sociais, econômicas, políticas OU DE VIDA OU MORTE ficam pra depois quando a camiseta azul e a vermelha ficam frente a frente.

E aqui, se aprecia um 0 a 0 com 8 expulsões talvez até mais que um jogo lindo e cheio de gols.

A mídia nunca vai entender isso. Nós entendemos mais que ninguém

E olha que esse foi só o primeiro capítulo dessa história. E a América que se acostume.

Raul Pereira/Estadão

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